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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Um Apólogo


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...


Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
 Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.

Machado de Assis

domingo, 14 de novembro de 2010

O Amor é uma Carta



" - O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epístola no fundo  da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um ' post-escripitum'..."

A Mão e a Luva, 1874. Cap. I." O fim da Carta"
 Machado de Assis

A Mão e a Luva


    Particularmente, Machado de Assis é o meu escritor favorito, e o de muitas outras pessoas que também apressiam a literatura. Amplamente conhecido como o " maior nome da literatura nacional".
   Seus livros tratam de variados temas. Especialistas notam cinco elementos fundamentais em seus textos:
      - Clássicos: equilíbrio, concisão, contenção lírica e expressional;
      - Românticos: narrativas convencionais ao enredo;
      - Impressionistas: recriação do passado através da memória;
      - Realistas: atitude crítica, objetividade, temas comtemporâneos;
      - Modernas: o elíptico e o alusivo engajados à um tema que permite diversas leituras e interpetações.
   Mas teremos muito mais tempos pra falar sobre ele.

   Aqui quero expor em especial, o último livro dele que tive a oportunidade de ler: " A Mão e a Luva".

  É um românce datado de 1874, tem um rítmo de narrativa bem diferente de " Memórias Póstumas de Brás Cubas". Conta a história dos protagonistas: a bela Guiomar, o apaixonado Estevão, o impaciente Jorge, e Luis Alves, alguém que só parecia ser um observador de toda a trama. A primeira e fortemente cortejada por Estevão e Jorge, mas não demostra sentir nada diante das declarações de seus admiradores. Luis Alves que é, pelo que diz o livro, o melhor amigo de Estevão, que sempre chora e desabafa para seu amigo. A moça faz grande suspense em escolher um futuro marido, mas a ambição dela é maior que seu suspense e indiferênça. Em um Livro de rápida leitura, Machado de Assis cria uma atmosfera muito atraente, continua com uma de suas principais características: conversa com o leitor e trás um final surpreendente. Não vou contar-lhes a história, deixo que a curiosidade seja a influencia para ler esse excelente livro.



 A Mão e a Luva
Escritor: Machado de Assis
Idioma: Português
País: Brasil
Lançamento: 1874